Brasil vai às urnas em um mundo mais tenso: liberdade, instituições e economia estão no centro da política em 2026

Por PoliticaBrazil.com | 2 de outubro de 2026
Poucas eleições brasileiras ocorreram em um ambiente internacional tão complexo quanto o de 2026.
No próximo domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros escolherão presidente, governadores, senadores e deputados. A disputa presidencial chega à reta final com Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro como os dois principais concorrentes, em uma eleição na qual economia, segurança pública, corrupção e funcionamento das instituições estão entre as preocupações presentes no debate eleitoral. Reuters
Mas olhar apenas para os candidatos seria insuficiente.
A pergunta mais importante talvez seja outra:
Que tipo de Estado e de instituições o Brasil terá durante os próximos quatro anos?
Essa discussão ultrapassa a tradicional divisão entre esquerda e direita. Ela envolve os limites do poder político, a independência das instituições, a responsabilidade no uso do dinheiro público e a capacidade de conciliar liberdade econômica com proteção das pessoas que efetivamente precisam do Estado.
A eleição de 2026 vai muito além da Presidência
Existe uma característica desta eleição que merece atenção especial.
O próximo presidente poderá participar da escolha de ocupantes de posições importantes no Supremo Tribunal Federal, Banco Central e diferentes agências reguladoras, ao mesmo tempo em que o Senado continuará tendo papel decisivo na aprovação de várias dessas indicações. A Reuters observa também que o Congresso ampliou sua influência tanto sobre o orçamento federal quanto sobre a produção legislativa nos últimos anos. Reuters
Isso significa que 2026 não será apenas uma eleição sobre quem ocupará o Palácio do Planalto.
Será também uma eleição sobre a distribuição de poder entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
Em qualquer democracia constitucional, esse equilíbrio importa.
Executivos excessivamente poderosos podem enfraquecer os mecanismos de controle. Parlamentos excessivamente dependentes de interesses particulares podem transformar recursos públicos em instrumentos de negociação política. Judiciários que ultrapassem os limites de sua função podem acabar tomando decisões que deveriam ser solucionadas pelo processo político.
O desafio democrático não está em encontrar um Poder suficientemente forte para controlar os demais.
Está justamente em impedir que qualquer Poder seja forte demais.
Liberdade exige instituições — e instituições também precisam de limites
Grande parte da discussão política brasileira recente passou a girar em torno de conceitos como democracia, liberdade de expressão, segurança jurídica e independência judicial.
Esses princípios não deveriam pertencer exclusivamente à esquerda ou à direita.
O Estado de Direito pressupõe uma regra relativamente simples: o cidadão deve conhecer previamente as leis às quais está submetido, e essas leis devem valer também para quem exerce o poder.
O Brasil chega às eleições depois de um período de intensas disputas envolvendo o Supremo Tribunal Federal. Em setembro, o próprio STF adiou a análise de um caso envolvendo a possibilidade de investigação de um de seus ministros, Alexandre de Moraes, em meio a uma crise institucional amplamente acompanhada pela imprensa nacional e internacional. AP News
A resposta democrática para controvérsias dessa natureza não deveria ser enfraquecer o Judiciário nem conferir-lhe poderes ilimitados.
Deveria ser fortalecer transparência, devido processo legal, possibilidade de recurso, prestação de contas e separação entre os Poderes.
Esses princípios protegem tanto quem está no governo quanto quem está na oposição — e, principalmente, o cidadão que não possui poder político algum.
Justiça social e responsabilidade fiscal não precisam ser adversárias
Outra disputa recorrente na política brasileira aparece entre dois conceitos frequentemente apresentados como incompatíveis: proteção social e responsabilidade fiscal.
Essa oposição é artificial.
Um país com milhões de famílias vulneráveis precisa de políticas sociais. Mas políticas públicas sustentáveis dependem de recursos, crescimento econômico e contas públicas capazes de sobreviver à próxima eleição.
Durante a reta final da campanha, o governo Lula anunciou aumento de benefícios sociais e programas voltados a famílias endividadas. Também anunciou medidas envolvendo o setor de apostas online. Reuters
O debate relevante não é simplesmente se determinado programa é de “esquerda” ou de “direita”.
É perguntar:
- quanto custa;
- quem recebe;
- qual resultado produz;
- como será financiado;
- quais incentivos econômicos cria;
- e se continuará financeiramente sustentável no longo prazo.
Uma política social eficiente pode ampliar oportunidades.
Uma política social mal desenhada pode aumentar dependência sem resolver pobreza estrutural.
Da mesma maneira, responsabilidade fiscal não significa abandonar os vulneráveis. Significa reconhecer que todo benefício público precisa ser pago por alguém, seja atualmente por meio de impostos ou futuramente por dívida, inflação ou menor capacidade de investimento.
Segurança pública volta ao centro da eleição
A segurança também ocupa posição importante no debate brasileiro.
Em setembro, autoridades brasileiras intensificaram ações destinadas a impedir que candidatos suspeitos de vínculos com organizações criminosas chegassem às eleições. A movimentação ocorre em um contexto de crescente preocupação com a influência econômica e territorial do crime organizado. Reuters
Existe aqui um problema que ultrapassa a discussão tradicional sobre políticas policiais.
Quando organizações criminosas conseguem influenciar eleições, negócios, serviços públicos ou territórios, o problema passa a ser também institucional.
Não existe liberdade econômica onde empresários precisam negociar com criminosos.
Não existe liberdade individual onde cidadãos dependem da autorização de grupos armados para circular.
E não existe democracia plena onde organizações criminosas conseguem transformar poder econômico e territorial em influência política.
Ao mesmo tempo, segurança pública precisa permanecer submetida ao Estado de Direito. Combater organizações criminosas e preservar direitos individuais não são objetivos contraditórios.
Uma democracia precisa conseguir fazer ambos.
Brasil também enfrenta uma disputa geopolítica
A eleição brasileira ganhou ainda uma dimensão internacional incomum.
Autoridades brasileiras afirmaram ter identificado possíveis tentativas de influência estrangeira envolvendo Estados Unidos e Rússia e chegaram a compartilhar informações sobre o assunto com representantes franceses e alemães. As alegações permanecem politicamente controversas e não equivalem, por si só, a comprovação de interferência eleitoral. Reuters
As relações entre Brasília e Washington também foram tensionadas durante o ano por disputas comerciais e tarifas impostas pelos Estados Unidos. Reuters
Independentemente de quem governe Brasil ou Estados Unidos, existe um princípio que deveria interessar a qualquer democracia:
a escolha dos governantes brasileiros cabe aos brasileiros.
Cooperação diplomática é necessária.
Comércio internacional é desejável.
Alianças estratégicas são legítimas.
Interferência na decisão política de outra sociedade é outra questão.
Estados Unidos entram na batalha pelo Congresso
O Brasil não está sozinho em seu ciclo eleitoral.
Os Estados Unidos realizam suas eleições legislativas de meio de mandato em 3 de novembro, quando o controle do Congresso estará em disputa. No Senado, os democratas precisam conquistar quatro cadeiras atualmente controladas pelos republicanos para obter maioria. Reuters
A campanha ocorre também enquanto a Suprema Corte norte-americana volta a examinar questões relacionadas aos limites da autoridade presidencial, incluindo políticas de imigração e poderes exercidos pelo Executivo. Reuters
É uma discussão curiosamente semelhante à brasileira.
Quem deve limitar o Executivo?
Até onde pode ir o Judiciário?
Qual deve ser o papel do Congresso?
Democracias diferentes estão enfrentando versões diferentes da mesma pergunta:
quem controla aqueles que controlam o Estado?
Ucrânia mostra o preço extremo da política quando a diplomacia fracassa
Enquanto brasileiros e americanos discutem seus governos nas urnas, a Europa continua lidando com uma realidade muito mais grave.
A guerra entre Rússia e Ucrânia permanece ativa.
Nesta quinta-feira, ataques russos atingiram infraestrutura e pontes importantes em Kyiv, provocando mortes, feridos e interrupções no transporte da capital ucraniana. Reuters
Ao mesmo tempo, a tensão entre Rússia e OTAN voltou a crescer.
Moscou advertiu que poderia recorrer à sua capacidade nuclear caso considerasse ameaçado o acesso russo a Kaliningrado, enquanto governos europeus reforçam alertas sobre ataques híbridos, drones e operações de influência. Reuters
É um lembrete bastante concreto de uma verdade frequentemente esquecida em períodos eleitorais:
instituições internacionais, diplomacia e mecanismos de contenção de conflitos podem parecer burocráticos até o momento em que deixam de funcionar.
Israel também se aproxima das urnas
Outro foco político internacional será Israel.
O país terá eleições parlamentares em 27 de outubro, em meio às consequências políticas e sociais dos conflitos iniciados depois dos ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, das operações militares posteriores em Gaza e das tensões regionais envolvendo o Irã e outros atores do Oriente Médio. Reuters
Também surgiram novas disputas sobre os limites da participação política. Nesta sexta-feira, o líder do partido árabe Balad, Sami Abu Shehadeh, retirou sua candidatura depois de uma controvérsia judicial sobre sua elegibilidade, reacendendo discussões no país sobre liberdade de expressão, segurança nacional e igualdade política. Reuters
São temas difíceis justamente porque diferentes direitos podem entrar em conflito.
Democracias maduras não eliminam essas tensões.
Criam regras para solucioná-las sem abandonar os direitos fundamentais de seus cidadãos.
O fenômeno político mais importante de 2026 talvez não seja esquerda contra direita
Existe ainda uma mudança política mais ampla ocorrendo.
Resultados recentes na América Latina mostraram avanço de forças conservadoras em alguns países, enquanto governos e partidos tradicionais de diferentes orientações enfrentam desgaste em várias democracias. Reuters registrou vitórias conservadoras recentes na Colômbia e no Peru dentro dessa mudança regional. Reuters
Mas interpretar tudo simplesmente como uma “onda de direita” ou uma “derrota da esquerda” pode esconder uma transformação mais profunda.
Eleitores estão pressionando governos por resultados concretos:
segurança;
emprego;
controle da inflação;
serviços públicos eficientes;
menos corrupção;
mais oportunidades.
As ideologias continuam importantes.
Mas a tolerância com Estados caros, ineficientes ou incapazes de cumprir suas funções básicas parece cada vez menor em diferentes democracias.
O cidadão deveria voltar ao centro da política
Talvez exista uma pergunta capaz de atravessar praticamente todos esses debates:
o Estado existe para servir ao cidadão ou o cidadão existe para sustentar o Estado?
Uma sociedade livre precisa de governo.
Precisa de polícia.
Precisa de Justiça.
Precisa de políticas sociais.
Precisa de infraestrutura, educação e mecanismos capazes de garantir oportunidades mínimas para aqueles que começam a vida em condições profundamente diferentes.
Mas nenhuma dessas necessidades elimina a importância da liberdade individual.
O Estado não deveria determinar como uma pessoa deve pensar.
Nem impedir que cidadãos pacíficos discordem de seus governantes.
Nem transformar impostos em recursos sem responsabilidade.
Nem permitir que origem, renda, religião, posição política ou relacionamento com o poder definam quais direitos uma pessoa possui.
A democracia liberal depende justamente dessa combinação aparentemente difícil:
um Estado suficientemente forte para proteger direitos e suficientemente limitado para não suprimi-los.
No domingo, o Brasil escolherá representantes.
Mas a discussão política mais importante continuará muito depois da apuração dos votos.
Porque eleições escolhem governantes.
Instituições determinam até onde esses governantes podem ir.
